segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ano Novo Dia - Maria Luiza

 Foto by Claudio Barbosa
Penso no Ano Novo
não como um novo ano
e sim como um novo dia.
Um passo de cada vez
para se fazer o caminho.
Um dia a mais
no resto de minha vida.
Como são todos os dias.
Não acordarei diferente,
não farei lista de metas,
não farei planos.
Apenas viverei,
simplesmente,
o cada dia que me for permitido.
Quero poder chegar
ao final de cada jornada
e ter a certeza
de que vivi
o que deveria.
Amanhã sempre será Ano Novo.
Como hoje é sempre Natal:
cheio de presentes,
mesmo que não os vejamos,
ou que sejam somente
como um beijo:
o sentir o sabor
da alma do outro.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Peixes, ascendente Leão - Maria Luiza

Cuidado com as redes
deste mar escuro
prender-te-ão como paredes
não te darão futuro

Sou peixe-palhaço
vivo no meio do perigo
ganho um bom abraço:
a anêmona é o meu abrigo

Não pise no meu sonho:
não haverá perdão possível...
farei um feitiço medonho
serei totalmente insensível.

Não provoque o peixinho
que ele vira tubarão,
acostumado aos espinhos
Peixes, ascendente Leão.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Gramaticando - Maria Luiza

Sujeitos intransitivos
erros mil de concordância
verbos defectivos
predicados de redundância
contexto incoerente
capítulos em desuso
tropeços inclementes
gramática do abuso
frases descartáveis
virgulas inomináveis
comédia previsível
numa história possível
sem pronome nominal
com epílogo carnal.



Um exercício lúdico à uma poesia de Delmar Gularte chamada Escreviventes.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Credo às Avessas (ou Nietzsche Tinha Razão) - Maria Luiza


Creio num Deus
Cruel e menino:
que joga comigo,
sou peão do Destino.

Creio num Deus
Cruel e sábio:
que me deixa o beijo
e me nega o lábio.

Creio num Deus
Cruel e torto:
quem precisa de Deus?
Deus está morto.

sábado, 20 de novembro de 2010

Sob domínio - Maria Luiza


Ouve-se Le Cigne, de Saint-Saëns.  O som abafado sai de dentro da bolsa.  Paula busca o celular no compartimento apropriado, no bolso externo. Número desconhecido. Atende como de hábito: "Paula na escuta."  A voz grave e pausada do interlocutor a instrui: "Pegue seu casaco, chaves do carro e sua bolsa. Você irá receber daqui a pouco, via SMS, coordenadas para colocar no GPS do carro. Siga-as." Paula não reconhece a voz e pergunta: "Quem é você?" Ouve apenas a respiração profunda do interlocutor. "Quem é você e porque eu obedeceria suas ordens?" fala Paula. Uma pausa prolongada.  Paula percebe que o intelocutor sorve alguma bebida. "Não estou dando ordens...  ainda...  peço apenas que venha." A voz masculina transmite a calma da certeza de ser atendido. Paula hesita. Arfa. "Pois bem, me dê dez minutos para colocar os sapatos e pegar o casaco." Paula percebe que seu interlocutor desliga tão logo ela termina de falar.

Calça os sapatos de salto alto, pega o casaco preto que está atirado no sofá, revira a bolsa e confere se o spray de pimenta está lá dentro.  Nunca se sabe o que pode acontecer.  Faz um carinho em Arafat, seu gato persa cinzento, e coloca a ração no pote. "Filhote, não sei a que horas vou voltar." O gato se espreguiça e rodeia as pernas torneadas de sua dona, voltando para sua almofada.  Paula confere se as janelas estão fechadas e acende o abajur junto ao sofá. Ao chegar a porta do apartamento dá uma olhada para a sala e sorri ao ver Arafat enroscado em sua caminha. O celular acusa o recebimento de um torpedo.


Paula se acomoda no banco do motorista, pega o celular e joga a bolsa no chão, do lado do passageiro.  Vê as coordenadas recebidas e coloca-as no GPS. Liga o carro e sai da garagem.  Liga o rádio e conecta seu pen-drive com músicas clássicas.  Decide ouvir o Intermezzo de Manon Lescaut, de Puccini. Dirige calmamente seguindo as coordenadas do GPS e a música arrebata-lhe os pensamentos. A voz do seu interlocutor não lhe sai da cabeça.  Ela vasculha a memória, buscando referências e não as encontra:  "... peço apenas que venha." Ela já ouviu isso antes com a mesma modulação de voz, mas onde? Quem lhe disse isso? Em quais circunstâncias? Olha novamente para o GPS para conferir o caminho. Ela continua no rumo correto.

As coordenadas a levam para uma rua em subida, onde só se vê terrenos com grades e portões de ferro imensos, vez ou outra ela vislumbra uma casa no meio de bosques.  A rua não tem o movimento frenético da cidade lá embaixo.  Há uma tranquilidade assustadora, porém Paula confia em seus instintos e prossegue. O GPS avisa que ela chegou no destino. Há um grande portão de ferro e bronze trabalhado em volutas à sua frente. O terreno possui muros altos e se vislumbram copas de árvores altíssimas por detrás dos muros. Paula percebe as câmeras de segurança ao lado do portão, que se abre lentamente.  Engata a primeira e entra na propriedade.  Uma viela de paralelepípedos conduz ao casarão estilo francês do séc. XIX que fica no alto do terreno. Devagar, Paula dirige seu carro, passando por uma fonte bem cuidada e jardins tratados ao modo do racionalismo francês. 

Estaciona o carro em frente à pesada porta dupla de cedro trabalhado. Mais câmeras de segurança. Ao saltar do carro, as portas abrem-se por controle remoto.  Não há ninguém no imenso saguão com piso em mármore e granito, formando desenho de rosa-dos-ventos. Em frente há uma escadaria dupla em curva. Pilares de madeira escura sustentam bustos de bronze.  Paula não reconhece nenhum deles. A voz do interlocutor se faz ouvir pelo sistema de som: "Suba a escada da direita e siga pelo corredor que estará à sua frente."  Paula obedece.

A casa toda tem uma decoração pesada, com quadros a óleo de boa procedência emoldurados em dourado, esculturas antigas de bronze e mármore, móveis comprados em antiquários, cortinas de veludo verde-garrafa e piso de tábua corrida. Novamente o sistema de som funciona: "Entre no quarto no final do corredor."  Paula abre a porta do quarto decorado em estilo francês e uma imensa cama de madeira de lei com dossel em madeira e voile colocada numa elevação do piso.  Na cama há uma cobertura de pele branca e macia e Paula vê pulseiras e tornozeleiras de couro e uma venda para os olhos em veludo negro.  "Dispa-se totalmente, mantendo apenas seus sapatos. Coloque as tornozeleiras de modo a que fiquem confortáveis, sem lhe apertar. Faça o mesmo com as pulseiras.  Vende seus olhos e ajoelhe-se na cama, de costas para a porta." As instruções chegam de modo pausado e calmo, a entonação é de pedido e não de ordem. Há uma carga forte de doçura na voz que a instrui.

Paula fica parada em frente à grande cama. O quarto de dimensões exageradas tem uma janela que está fechada com venezianas de madeira e a cremalheira ostenta um grande cadeado fechado. Seu olhar percorre as paredes que possuem telas que parecem-se com réplicas dos quadros de Turner, com o motivo preferido do pintor: tempestades no mar. Há pelo menos três Tabriz e dois Kashan adornando o piso de madeira, que ela tenha reconhecido. Seu apartamento inteiro caberia dentro deste quarto. Devagar ela retira o casaco e o deixa sobre uma poltrona antiga, forrada de adamascado em tons de bordô e creme. Abre o zíper da saia preta e a deixa cair, revelando a calcinha de algodão branco, que mais parece com um biquini comportado. Desabotoa a blusa de seda branca e a retira, deixando aparecer o meia-taça branco de algodão.  Arruma cuidadosamente suas roupas na poltrona e dirige-se para a cama.

Senta-se na beirada e ajusta as tornozeleiras de couro em suas pernas de dançarina. Estica a perna esquerda para cima e observa a linha torneada arrematada pelo escarpin preto de salto 9,5. Ela sabe que suas pernas são bonitas e ficam mais desejáveis com saltos muito altos.  Coloca as pulseiras e abre seu sutiã, deixando os seios à mostra. Pega a venda e a experimenta sobre os olhos.  Quando der o nó, não conseguirá mais ver nada.  A voz de seu anfitrião se faz ouvir novamente nos alto-falantes: "Eu lhe pedi que se despisse totalmente.  Você ainda tem uma peça de roupa." A doçura do pedido vem num sussurro, como se ele lhe falasse ao ouvido.  Paula num sobressalto instintivamente cobre os seios com os braços e vira-se para trás.  Não há ninguém.  "Não se assuste, não lhe farei mal e também não farei nada que você não queira.  Confie e tire a peça que falta."  Quase que em transe, ela obedece e fica completamente nua.  "Agora vá para a cama e se posicione da maneira que sugeri.  Depois que amarrar a venda, coloque seus braços para trás e espere."  Paula faz tudo o que o homem diz e se posiciona ajoelhada na pele branca com a venda sobre os olhos e os braços para trás.  O tempo parece parar. Ela ainda não conseguiu decifrar de onde conhece a voz de seu interlocutor.

Preludio e "liebestod" de Tristão e Isolda é a música que preenche o silêncio do quarto. Paula percebe que as luzes foram diminuídas na intensidade. Um perfume suave e agradável de rosas se faz sentir. Permanece imóvel com o coração acelerado e sua respiração quase que suspensa. Estranhamente não sente medo, mas ansiedade. Continua intrigada com a identidade do seu interlocutor - ficou óbvio que ele a conhece, talvez mais do que ela imagina. A memória auditiva a está traindo, pois ela não consegue se lembrar da voz ouvida, mas a modulação e cadência parece-se com a mesma de um antigo amor. Não pode ser ele - ela está imaginando coisas. No vasculhar da memória, Paula não percebe a entrada do seu anfitrião. Seus cabelos longos são afastados da nuca por uma mão quente, com uma delicadeza ímpar. Algo a toca nas costas: um toque macio, como se uma flor lhe fosse passada na coluna, do pescoço em direção ao cóccix. Arrepia-se e empina os seios. O que ela julga ser um flor é passada levemente sobre o mamilo direito, fazendo ficar mais duro, e logo a seguir no mamilo esquerdo, causando o mesmo efeito. O toque continua descendo pelo abdomen até chegar à vulva.

Paula sente o cheiro da pele do anfitrião.  Não há perfume algum, apenas o cheiro da pele.  A memória olfativa avisa que este cheiro é conhecido e profundamente excitante e agradável para Paula.  Vendada, os outros sentidos parecem aflorar com mais intensidade: o hálito com leve odor de whisky, a maneira suave como ele a toca com a flor, a música escolhida - que segundo a lenda, foi escrita por Wagner quando estava na cama com sua amante - e finalmente o paladar: a língua quente a penetra nos lábios e o sabor do beijo roubado é o mesmo da entrega por amor.  Delicadamente, seu anfitrião prende as pulseiras às tornozeleiras, impossibilitando qualquer movimento dela e lentamente a deita de bruços sobre o cobertor de pele.

Os lábios percorrem seu pescoço, com beijos suaves e, vez ou outra, a língua perscruta o sabor de sua pele. As mãos poderosamente grandes e quentes seguram seus ombros e descem por sua pele alva em direção à cintura e ancas e arrancam um suspiro de Paula. As mãos continuam seu passeio pelo corpo dela: bunda, vulva, coxas, panturrilhas.  Ele retira os sapatos dela e massageia a planta dos pés, relaxando a eventual tensão que ela possa estar sentindo.  As mãos voltam a percorrer seu corpo, desta vez ousando mais e tocando os grandes lábios e o clitóris.   Paula está excitada e seu anfitrião pode constatar ao tocá-la.  A vulva molhada é um convite. Ele a penetra habilmente com um dedo e massageia seu clitóris com os outros, enquanto beija seu pescoço. A excitação de Paula é crescente, porém a imobilidade não a deixa retribuir como gostaria.

Seu anfitrião é um Dominador. Não dá chance para que ela se manifeste: nem para o bem, nem para o mal.  Paula percebe-se como posse - objeto de desejo e prazer de um homem envolto em mistério.  Conhece-lhe o cheiro, lembra do beijo, mas é algo tão antigo na memória que ela não faz idéia a quem pertence.  Arrisca uma pergunta, num sussurro: "Como você chegou até meu telefone?" A resposta é uma estocada do dedo em sua vagina, ao mesmo tempo que os dentes são cravados no pescoço, num misto de mordida e chupão que a faz arrepiar-se e sentir dor. Decide calar-se por prudência. "Silêncio" - ele sussurra em sua orelha. É a mesma voz grave da ligação e do sistema de som - "Não responderei às suas perguntas.  Sinta a música e as minhas carícias.  Entregue-se."

O tom usado é imperativo, não em forma de súplica, mas vem em forma ordem.  Paula é independente em suas relações e não se conforma de ser usada como uma boneca inflável. A imobilidade e o tamanho do homem a deixam em posição inferior e ela não tolera ser manipulada dessa forma. Apesar das lembranças dos cheiros, da maneira de tocar, do beijo serem as mais agradáveis, ela não se sente segura, por precaução, não reage como faria em outra situação, mas também não se entrega. As carícias do anfitrião continuam percorrendo seu corpo: mãos, lábios, língua a devoram como se fosse a primeira vez que o homem possuísse uma mulher. Explora as diferentes texturas da pele, dos pelos, das mucosas com as mãos e com a boca.  Prova cada pedaço dela como se fosse um banquete servido a quem falta comida. Paula aos poucos cede às carícias, pois percebe que apesar do homem ser dominador, não é violento se não for contrariado.

Ele volta a lhe beijar a nuca e inspira profundamente na inserção do pescoço com o ombro. Ali, onde o cheiro da pessoa é o mais real, mais animal, aquele lugar onde descobrimos quem nos excita verdadeiramente. Detem-se por um bom tempo sentindo o perfume dela, enquanto as mãos voltam a percorrer as laterais do corpo, como se moldasse uma escultura em barro, demarcando a cintura e as ancas. As mãos seguem para o abdomen e sobem em direção aos seios, manipulando os mamilos e fazendo-os ficarem arrepiados. Paula sente o falo encaixar-se entre suas pernas e roçar seu clitóris. Geme baixinho. Sua orelha é invadida pela língua quente e grossa ao mesmo tempo que o falo cumpre seu trajeto vulva adentro. Primeiro devagar, num ritmo onde ela sente cada milímetro entrar e sair e os movimentos vão num crescendo de velocidade e voltam a ficar devagar novamente; uma das mãos aperta os seios enquanto a outra toca o clitóris. Paula goza como há muito tempo não acontecia.  Havia somente um homem que a fez gozar dessa maneira, mas isso foi há muito tempo.
 
O homem satisfaz seus instintos e descansa seu corpo suado e pesado sobre Paula. Ela tem dificuldade para respirar e a posição em que se encontra amarrada começa a deixar-lhe com as mãos dormentes. Tenta manter-se em silêncio, porém outro gemido lhe escapa, fazendo com o homem se levante, para alívio dela.  Ele a desamarra e, sem dizer palavra, desaparece.  Paula se dá conta de que está só e abaixa a venda.  "Atrás da cama você encontrará um banheiro onde poderá se lavar.  Você tem vinte minutos para voltar para a cama.  Ainda não terminei com você."  A voz vem novamente do sistema de som.  Ela sente os joelhos e as coxas doloridas pelo tempo em que passou na mesma posição e lentamente vai até o banheiro. 

Mármore branco no piso, paredes e bancadas.  Próximo à janela uma imensa hidromassagem com um banho quente preparado com pétalas de rosas laranjas e velas cor de rosa ao redor da banheira. A música volta ao sistema de som e Paula reconhece o Adágio do Concerto de Aranjuez. Lava-se no chuveiro rapidamente e entra na banheira - a água quente e o perfume suave dos sais de banho a relaxam totalmente.  Fecha os olhos e se deixa levar pela música. Num quase adormecer tenta buscar na memória a voz do homem que ela amou, mas não é a mesma voz que falou com ela ao telefone, pelo sistema de som ou no seu ouvido.  Abre os olhos e vê no relógio antigo afixado na parede que já se passaram quinze minutos dos vinte que seu anfitrião lhe concedeu.  Sai da banheira e seca-se com uma imensa toalha negra aveludada e coloca o roupão de seda vermelho com uma fênix bordada nas costas.

Ao entrar novamente no quarto vê ao lado da cama um balde com gelo onde repousa uma garrafa de Veuve Cliquot Ponsardin Rosé e duas flutes de pés em arabesco de vidro formando uma clave de sol. Sobre a coberta de pele há uma bandeja com canapés finos de sabores variados e uma braçada de tulipas amarelas. Paula começa a perceber que nada é gratuito, as músicas escolhidas com cuidado, a cor das pétalas de rosa na banheira, a cor das velas, e agora, as tulipas. Seu anfitrião passa mensagens subliminares através dos detalhes. Ela agradece em voz alta o buquê e o repasto.

"Sirva as duas flutes e desamarre o cinto do roupão. Não precisa colocar a venda.  Fique confortável na cama." Na voz há ternura e firmeza e Paula já não se sente ameaçada como no primeiro contato físico.  Senta-se na beirada da cama e serve o champagne.  Pega um canapé de salmão e sente a massa leve e crocante desmanchar em sua boca: a iguaria é de alta qualidade.  A porta se abre lentamente e seu anfitrião aparece num roupão negro de seda e um gorro feito do mesmo tecido que somente deixa ver os olhos e a boca.  O homem tem uma compleição robusta, de quem praticou esportes na juventude. Paula se impressiona com o tamanho das mãos dele, e observa que são mãos bem cuidadas, sem exageros. Estica o braço e alcança-lhe a flute. "Espero que tenha gostado do banho que mandei preparar para você e dos canapés. O champagne, esse eu sei que é o seu preferido."   O homem se vira de costas e ela vê que o desenho nas costas do roupão não é uma fênix como a dela e sim um dragão chinês multicolorido - o desenho é ressaltado pelo fundo negro da seda.

"Bonito dragão" comenta baixinho Paula.  "É o meu amuleto de boa sorte, assim como a sua fênix. Tenho ambos gravados no corpo." responde calmamente.  "Você verá ambos, no momento oportuno."

Ouve-se Le Cigne.  O som sai abafado de dentro da bolsa. Paula pega o celular e desta vez reconhece o número. “O que você quer?” pergunta com um tom de voz contrariado. “Paula, largue tudo o que está fazendo.  Preciso de você agora!”

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Palavras - Maria Luiza

Olho-te.
Penso-te.
Vejo um mundo de possibilidades no teu olhar:
no meu olhar as limitações do tempo.
Mergulho nos sonhos que não passarão disso:
prenúncios medonhos de qualquer sacrifício.
Seria eu a "ela" anunciada?
que nada, não sou mais a donzela
que fui outrora, envelheço
mais agora quando feneço
neste amor interdito
e fica o dito pelo não dito
naquilo que não dizes
e abrem-se as cicatrizes
do que tu calas.
Não tenho mais falas,
nem mais perguntas:
só, talvez, ilusões defuntas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Corsária - Maria Luiza

 Turner

Passada a tempestade emocional, retomo o rumo, o prumo e o leme.

A embarcação quase sossobrou, os ventos foram fortes demais e as velas enfunaram-se uma para cada lado. Raios atingiram o mastro principal e quase o perco, mas pude apagar o incêndio a tempo.

Agora é navegar na calmaria...Uma paz estranha toma conta. Parece-se com a morte, onde tudo cessa, onde não há mais dor, onde não há mais luz, apesar da luz do dia. 

Silêncio.

O mar agitado transmuta-se num lago espelhado. Noite, sem lua, nem estrelas. A brisa acalma os ânimos e o coração volta a bater em seu compasso tranquilo.

Penso. Navego. Não há porto, não há cais. Pelo menos não à vista.

Sorrio com a certeza de que não será apenas uma tempestade que vai me fazer desistir de ser corsária. É a minha natureza, acima da Natureza.

E o inexorável Destino da corsária é manter-se no mar.

domingo, 19 de setembro de 2010

Meu Amigo Peludo - Bárbara Corrêa

Esta é a primeira poesia de Bárbara, minha filhota de 11 anos. Como boa mãe coruja que sou, compartilho com meus leitores minha frutinha que não caiu longe do pé...

Ele tem olhos de chocolate
poderia ser qualquer um
ele me morde e late
mas não é um cão comum

eu e o meu cachorro,
nos dias de inverno
eu com meu gorro
e ele com meu caderno

Grande companheiro peludo
Sobe sem pedir em minha cama
Para mim ele é tudo!
E ele sabe quem o ama. 

sábado, 11 de setembro de 2010

Maldição de Morgana - Maria Luiza

Foto original retirada do Museu Tamayo - México
Arte: Maludiascosta

Arranquem meu coração

e ainda assim o meu sangue

continuará pulsando no coração dele.


Esqueçam da minha existência

e ainda assim continuarei
a existir
nos pensamentos dele.

Sobreviverei em sua memória,

mesmo que ele diga amar

a mil outras mulheres.

Fui eu quem o ensinou a amar.
Essas outras que me agradeçam por isso.
O que ensinei a ele é inesquecível
para qualquer ser humano.

Essa é a maldição que lanço:

em todos os sonhos
em todas as sombras

ele sentirá minha presença.

Olhar - Maria Luiza


foto by Gisah Corrêa


Olho em volta.

Olho acima.

Olho abaixo.

Olho você.

Espelho.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Quixotesca - Maria Luiza


Talvez o poeta tenha razão
ao declinar em palavras normais:

"os deuses vendem quando dão".

Resta a nós, os pobres mortais,

querer ou não pagar o preço:

valer-se a ultrapassar umbrais,

lançar-se num outro começo.

Mas para tal é preciso ousadia,

cara e coragem em demasia;

não é tarefa para um homem comum:

é preciso de si mesmo ser paladino
em sendo um não-herói algum,

ao seguir o sentimento cristalino,

ao fazer da História a Poesia.

domingo, 5 de setembro de 2010

Entre Saramago e Beethoven - Maria Luiza

Foto by Nina Paduani


"Se podes olhar, vê.
Se podes ver, repara.
"
epígrafe de O Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago


A fumaça sobe preguiçosamente do cigarro rumo ao amplo espaço do ar. Branco-azulado fazendo volutas como ondas. Uma tragada e o sabor amargo do tabaco traz lembranças doces. Desta vez não me neguei: disse que amava.


Mas não disse o quanto amava, nem ao menos fiz questão de explicar a boca seca e as mãos úmidas e trêmulas. Sentia-me uma cega. Da mesma cegueira que Saramago descreve como "cegueira branca": não via todo o entorno, não queria ver. A única coisa que importava era a presença dele, o olhar carinhoso, as mãos que me acariciavam. Otimistamente só conseguia ver os prós - não havia como pensar nos contras, quando o coração batia mais forte na companhia do pedaço arrancado. Era como se voltasse a viver, depois de muito tempo em animação suspensa. Ele descrevia as impossibilidades e as suas palavras soavam mais um desafio a ser superado do que propriamente o que ele queria dizer. Assim eu o interpretava: como se me desafiasse com as impossibilidades, num teste para saber se o que eu havia dito tinha valor, se o amor que eu dizia sentir era mesmo verdade. Mal sabia ele...

Os dias passaram, junhos, julhos, agostos infindáveis, luas e mais luas se sucederam. A vida continuou como estava antes, continua tudo igual até agora, só que com um sentimento de desolação:
"O amor exige tudo e com pleno direito: eu para com você e você para comigo. No entanto, duvida tão facilmente que eu tenho que viver para mim e para você. Se estivéssemos completamente unidos, nem você nem eu estaríamos nos sentindo tão desolados." Leio e releio a carta de Beethoven, Tresleio e acendo outro cigarro. A fumaça sobe novamente preguiçosa. Branco-azulado, cegueira branca, pétalas roxas: minhas olheiras de vigílias intermináveis a cuidar da velha criança que insiste em brincar quando seria a hora do descanso.

Abro os olhos: terminaram-se os dias cinzentos - o sol brilha aqui dentro. Talvez eu não tenha dito tudo. Haverá tempo para dizer mais.


"
... deine Liebe machte mich zum glücklichsten und zum unglücklichsten zugleich... ...ewig dein, ewig mein, ewig unß." - L. v. Beethoven


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Samba pro Delmar - Maria Luiza


O meu samba pra você
tem um quê de um bolero,
tem bastante bem-querer,
tem balanço, tem um lero.
Se eu canto, não me calo,

sou assim: eu sou menina,
veja só que coisa linda -
te convido pra esquina
e tomar rabo-de-galo
lá na Marquês de Olinda!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O vento não levou - Maria Luiza


O que o vento não levou

No fim tu hás de ver que
as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:


um estribilho antigo

um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas

o cheiro que tinha o próprio vento...

(Mario Quintana)

Um certo desassossego no peito e uma leniência com a vida... deixo o rio correr, pois não posso apressá-lo. Os dias pachorrentos de trabalho e isolamento parecem infindáveis. Estranho como as pessoas à volta não se dão conta do que se passa no recôndito da alma alheia. Gostaria de não ser tão borbulhante por dentro. Por fora posso até parecer plácida na maioria das vezes, mas a cabeça e o coração pulsam em agitação constante.

Dia desses ofereceram uma moeda por meus pensamentos: não os disse. Apenas sorri e me retirei. Ando sem vontade de falar e escrevo somente quando estou só. Não, não estou triste, só não tenho ânimo para conversas corriqueiras que nada acrescentam. Mergulho no meu interior e lá fico: explorando cada aspecto da minha própria essência e questiono o sentido de cada coisa que faço, que fiz. É estranho ver como as respostas se modificaram ao longo do tempo e hoje as perguntas também não são mais as mesmas. Olho o caminho percorrido e vejo quantos foram os acertos e os vários erros que cometi - a isso dão o nome de experiência de vida - eu nomeio apenas como vida. Não me sinto "experiente" - sinto-me ainda uma aprendiz da arte de viver. Que venha a vida, pois a abraço e sigo com ela. Seja boa ou má - é a única que tenho: desesperançadamente - "não há nada a ser esperado, nem desesperado", lembra-me Caio. Parei de pensar em futuro: coloquei todos os meus planos de volta na gaveta e passei a chave. Filosofo igual ao Zeca Pagodinho: "deixa a vida me levar - vida leva eu".

O estrebilho antigo: "Eu sou sua menina, viu? Ele é o meu rapaz, meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.."

O carinho no momento preciso: "todos os beijos são roubados".

O folhear de um livro de poemas: "Livro do meu amor, do teu amor, Livro do nosso amor , do nosso peito...Abre-lhe as folhas devagar, com jeito, Como se fossem pétalas de flor. (Florbela Espanca)"


E o vento ainda tem o seu cheiro...

domingo, 25 de julho de 2010

Meu canto - Maria Luiza


Eu canto
um canto forte
de encanto

para o meu Norte.

Canto a vida,
canto o vento,

meu canto é tempestade,
é ferida, é lamento,
é alegria, é nostalgia,
é amor, é de verdade.

Eu canto
um canto certo,

onde a voz
se ouve perto,

mesmo que distante.


Como o soar do trovão

e o fogo da paixão,
meu canto
tem asas de desejo,
tem o brilho do instante,

dos raios o lampejo.

Meu canto
e minha voz
farão do mundo
uma casca de noz.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Trânsito Amoroso: A Fila Andou - Maria Luiza



Foto: Welton Araújo

Abaixo a poesia de meu querido amigo Delmar, que inspirou este quase samba. Mantive o mesmo título, com um pequeno ajuste.
Beijos pra você, Mazinho!



"Trânsito Amoroso: A Fila Anda - Delmar Gularte


Pode vazar
não dá mais
pode descer

cansei desses ais
deu pra você


Desce

por favor

e vê
se desaparece

do meu retrovisor

Deu de olhar
pra trás

sai da minha frente

até meio sem gás

vou disparar

nem passa rente


Larga do meu pé

que piso fundo

venha o que vier

vou cair no mundo

Meu coração
já doeu
o que devia
agora sou mais eu

em outra companhia"

*******************************

Você que tomou
o ônibus errado,
agora vem querer
sentar ao meu lado.
Diga aí: o que se passa?
Tá me achando
com cara de palhaça?
Nem vem com lero,
passei a régua,
desse jeito não quero,
vê se dá uma trégua!
Quando você
pensar
de novo em mim
saiba que chegou ao fim
sacuda a cabeça
e me esqueça!


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Quase - Maria Luiza


Estou triste. Vontade de chorar por nada, vontade de chorar por tudo.

Ao mesmo tempo sinto uma paz de quase morte. Aquela pressão interna que havia, se dissipa como fumaça... penso que quase fui feliz.


Aceito o que se apresenta: onde o tempo do não-tempo existe. E em existindo o não-tempo, provo que a minha não-existência pode vir a ser feliz.


Sou a sombra do lado escuro da lua.

Sou um peixe-abissal acostumado à escuridão.

Meus olhos míopes avermelhados pela pressão das lágrimas turvam-se e já não distingo o ser do não-ser. Não há dor física: há a dor da existência.
Viver dói fundo.
Insuportável a existência do não-existir.
Desidrato.
Desidério.
Destrato.

Maltrato.

A mim.

domingo, 18 de julho de 2010

A ilha - Maria Luiza




Sou uma ilha:
aqui há beijos à tua procura,
as areias não têm idade,
há um pouco de loucura,
o sonhar é a grande verdade,
minhas juras lançadas às marés,
esperanças náufragas de outrora
hoje batem aos teus pés
chegaram em boa hora?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Salto Ornamental - Maria Luiza


Subi na plataforma de saltos - 10 metros - e, sem olhar a piscina, mergulhei de cabeça.

Vejo apenas um espelho d'água, onde acreditei haver profundidade suficiente. Tarde demais para reverter o salto: enquanto meu corpo está suspenso no ar, tento pensar em como minimizar os ferimentos que terei.

Meu corpo em queda livre.

Meu rosto se aproxima da lâmina d'água. Constato: vou me esborrachar. Talvez não morra da queda, mas terei ossos e dentes quebrados. Talvez uma concussão, uma hemorragia interna. O coração rompido. Estado de coma. Novamente as reticências...

Toda uma vida feita em reticências. Talvez seja a hora de pedir o boné: das relações inacabadas, da maternidade usurpada, dos livros inconcluídos, da casa semireformada, da tragicomédia que me tornei.

Alguns pensarão que foi suicídio - não foi.

Acidental, incidental.

Proposital.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Foto em preto e branco - Maria Luiza


A vida tem estado em preto e branco.
Como uma foto que transmite
o silêncio do momento interior.

A total ausência de cores e sons

e a respiração suspensa

no momento do click - um instante eterno de espera

onde não há olhos, lábios ou cheiros.

domingo, 13 de junho de 2010

Seu vício - Maria Luiza



No próximo encontro tome-me sua:
beije minha boca antes que eu fale,
tire minha roupa, me deixe nua,

não permita que eu argumente
e questione o certo e o errado.

Trace meu corpo com suas mãos,
prove o sal da minha pele,
ocupe-me com sua língua.
Ame-me como se fosse o início...
Ame-me como se fosse o final...
Ame-me apenas
e me chame de seu vício...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Um Pedido - Maria Luiza


Acolha-me no silêncio do olhar primeiro:
olhos fechados pela doce calma
da infinita certeza deste teu encanto
que derramas sobre mim: tão verdadeiro!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Cama desarrumada - Maria Luiza


Estou dentro dos meus mundos: onde o amor é possível, onde os dias são perfeitos e as noites são calientes. E de dia sempre faz sol.

Quero mais o escapismo de leituras agradáveis, viagens para lugares distantes que algumas músicas me levam, sonhar com domingos ensolarados nas manhãs, ainda na cama desarrumada, café e você ao meu lado. Quero seu beijo.

O imposto que se paga por sonhar assim é alto: acordar com a noite ainda se despedindo, o nevoeiro bloqueando a visão do jardim e o frio do clima e da rotina da solidão puxando para a realidade infértil. Dias cinzentos e noites sem estrelas. Volto ao sonho, pelo menos assim, sinto-me viva. Já dizia Cazuza: "quem tem um sonho não dança..."

O mais estranho de tudo é que ninguém suspeita - nem mesmo você - de todas as marcas, perdas, lutas, dores e choros que carrego em mim. As minhas alegrias são visíveis, não as escondo. O meu lado noir, esse ninguém está habilitado a ver, há muito lodo no escuro do fundo deste poço.

Até determinado ponto da vida acreditei piamente em "fairy tales": "Happily ever after". Isso foi até o dragão da maldade humana mostrar que não existem príncipes e a vida é um grande pântano - cheio de sapos.

Alguns eu fui obrigada a engolir.


Criei uma úlcera.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Aracne - Maria Luiza


Teço teias
teço histórias
teço lendas
teço memórias
teço a vida
de outra vida
teço sonhos
pesadelos medonhos
teço romances proibidos
teço amores perdidos
teço músculos
teço veias
e teu vento
desfaz minhas teias...

domingo, 30 de maio de 2010

Pedaços de felicidade - Maria Luiza


As coisas podem se perder por aí, mas a gente é que não pode se perder de quem a gente gosta.
Nada melhor do que a gente reencontrar pedaços de felicidade nas gavetas e velhos amigos pela vida.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Elementos - Maria Luiza


Tiro-lhe do céu,
pois o ar não é o seu elemento.


Dou-lhe a água: sacie sua sede.
Beba da minha fonte.
Banhe-se nos meus fluidos.
Mergulhe e descubra
os prazeres abissais
que ninguém mais conhece,
pois estes estão à sua espera
- são seus, unicamente.
Você: Argonauta.


Nos meus líquidos
você encontrará
oceanos profundos
e mares não navegados.
Explore-os.
Surpreenda-se.
Encante-se.
Vinte mil léguas submarinas
não conterão
a metade da emoção
que lhe guardo.


Convido-lhe mais uma vez:
entregue-se a mim
como a areia
que se dá ao beijo do mar.
Conheça o vulcão submerso
que cospe seu fogo
sob as densas águas,
mas que ninguém vê.


Em terra você se considera a salvo:
pés fincados no barro
- aridez de idéias,
emoções ressecadas.
E os ventos que sopram
da terra enchem seus olhos
de pó e fuligem
turvando sua visão.


Dou-lhe mais uma vez a água:
lave seus olhos, rosto, corpo.
Dou-lhe a água:
lave sua alma.

Dou-lhe meu fogo:
consuma-se.

Consumamo-nos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Credo - Maria Luiza


Sua presença se faz em mim
na superfície da pele,

no pulsar do coração,

no fundo do meu sexo.

Olho dentro do meu olhar

e encontro você.
Mais do que os "mas" da vida.
Para você eu já disse.
E repito.

E confirmo.

Volto a dizer:
SIM.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Poções - Maria Luiza


Embriago-me de palavras,
quisera embriagar-me de beijos.

Dose após dose, letra após letra,

faço coquetéis potentes - poções de amor e poesia.

Escritos em preto no branco,
entrelinhas de literatura,

nobreza de conteúdo,

carinhos feitos de signos.

Absinto ou poção mágica?

Embriaguez ou feitiço?
Não importa, o resultado é o de sempre...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Cativa - Maria Luiza


O que posso fazer se estou condenada?
Cativa de um amor improvável

Que me prende com garras serenas

Que me pede paz e calma

Que provoca meus sentidos

E me olha de soslaio.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Descaminhos - Maria Luiza


Mais uma vez a vida mostra caminhos que não podem ser percorridos.
A minha inquietação é o reflexo da alma em movimento.

domingo, 25 de abril de 2010

O tango de nossas vidas - Maria Luiza


Sueños de tango - Maria Amaral


A orquestra dá os primeiros acordes;

o bandoneon anuncia o tango:
provoco-lhe com o olhar
e com a boca pintada em morango.
Você me enlaça pela cintura,
minhas mãos no teu peito;
começo a tortura...
não me deixo abraçar.
Olhar no olhar do outro:

o desafio parado no ar...
suavemente segura minha mão,

enrosca a perna na minha meia,
afasta meu corpo e me puxa
num rodopio que tonteia.

Eu, a simples tangueira
olhos de mel e areia
estou nua...
não entendo seu compasso...

num momento me repele,
noutro me prende com laço...

Convite - Maria Luiza



Convide-me para a dança,

que eu irei aceitar.

A música toca, mansa,

sinto teu cheiro no ar.

Há a minha frágil esperança

no universo do teu olhar...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Ah, se ele soubesse - Maria Luiza


Ah, se ele soubesse
dos beijos que guardo,
do fogo em que ardo,
do jogo que retardo

para que ele tenha paz.

Ah, se ele soubesse
quantas horas insone
varei por ter fome
ao dizer seu nome
num momento fugaz.


Ah, se ele soubesse
dos momentos incontáveis,
das alegrias inefáveis,
dos sentimentos imutáveis
que ele me traz.

Ah, se ele soubesse...
Apenas se soubesse
ou que mesmo adivinhasse...
Talvez ele pudesse
perceber do que sou capaz...

Imperecível - Maria Luiza


Imperecível:
O que há em mim para você.
O que há de mim para você.
Memória:
O que há de você em mim.
O que há em você para mim.
Esperança:
O que há para nós?
Resposta:
Nós.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Constatação 3 - Maria Luiza

Photo by Toze Loureiro

Quando a estrada se bifurca, ainda podemos seguir em frente pelo terreno não explorado. Vai da coragem de cada um...

quinta-feira, 25 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

Tarde - Maria Luiza


Cedo, concedo, mesmo que possa parecer tarde...
Nunca é tarde: será sempre cedo.
Sempre é cedo, como nunca será tarde.
Posso tardar, mas não falho.
Posso até ter falhado, mas não tardarei...

Ainda que tarde, eu-cedo.
Ainda que ceda, eu-ardo
Sempre-ardente
Sempre-viva
Sempre...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Quisera entender - Maria Luiza


Quisera entender a raiva
contida em palavras ácidas
proferidas por quem diz amar...

Quisera entender o destempero

por questões tão pequenas

tão ínfimas que nem vale falar...


Quisera entender como pode

alguém que gera um ser

fazer-lhe a guerra, sem ligar...


Já não o entendo,

assim não o quero,
ele me afasta,
cada vez mais!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O que resta... - Maria Luiza


Haveria paz, se houvesse o mar
Haveria alegria, se houvesse as montanhas

Haveria o sorriso, se houvesse o samba

Haveria esperança, se houvesse tempo...


e o relógio nos mostra o pouco que ainda nos resta!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Parque e jardim - Maria Luiza


Não esqueci. Não esqueço.
Fui a mais perfeita das mulheres.

Hoje o espelho aponta

as (imper)feições da ausência.

As marcas do que não houve,

traços de demência...

e o eterno olhar de afronta.


Não esqueci. Não esqueço.

Somente a lembrança conta
dos risos e prazeres
e das ruas vazias

da minha consciência.


Não esqueci. Não esqueço.

Seja no parque ou no jardim,

seja na casa ou dentro de mim,

é no seu olhar que encontro

a minha paz, a minha essência.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Caminhos e sonhos - Maria Luiza


Arte por Gisah Corrêa


No meu caminho existem sonhos.
Sonho com os meus caminhos.

Sem sonhos, não há caminho.

No caminho existem punhais.
Sonho com punhais e caminhos.

Uso o punho para traçar a estrada.
Abro os caminhos com os punhais.

Enveredo resoluta nos sonhos.

Empunho meus estandartes ancestrais.

Sigo. Ando. Sonho. Caminho.